quarta-feira, 17 de julho de 2013



AS RELAÇÕES RACIAIS NO BRASIL NA COMPOSIÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA SEGUNDO O PENSAMENTO DE GILBERTO FREYRE, ORACY NOGUEIRA E FLORESTAN FERNANDES

 
 

Marcos Carnevale Ignácio da Silva

 



RESUMO


  

Este trabalho pretende discorrer sobre os pensamentos destes renomados autores, abordando sua visão sobre as relações perpetradas pela sociedade colonial no que se refere às relações, principalmente entre brancos, negros e seus descendentes, abordando os aspectos principais das obras de cada pensador e sua influência na formação da sociedade brasileira.

 


PALAVRAS-CHAVE: relações raciais, escravidão, sociabilidade, preconceito, classes.

 


INTRODUÇÃO


  

Veremos nesta análise das ideias principais de cada autor, uma progressão de pensamentos, no que se refere às relações raciais, que constata o otimismo romântico de Gilberto Freyre, perpassando pelo pensamento sistemático do quadro de referência para interpretação das relações raciais de Oracy Nogueira e, finalmente, pelas ideias de Florestan Fernandes, que desmistifica o caráter harmonioso da escravidão no Brasil, defendido por Freyre.

Gilberto Freyre, em Casa-Grande e Senzala, de 1933, apresenta sua visão do Brasil patriarcal, da casa-grande, da influência cultural portuguesa, das relações permissivas entre brancos e negros, as paixões e excessos, deixando a visão biologisante de autores anteriores a seu trabalho, implementando uma visão culturalista. Ele compara o patriarcalismo nordestino com o dos americanos do Sul e os vê próximos, dando aos valores da casa-grande e da senzala uma interpretação quase romântica das relações raciais naquela sociedade, para ele, sem conflitos. Exalta os excessos sexuais perpetrados por senhores e escravos. Entretanto, este autor não aponta para uma passagem a uma sociabilidade mais ampla em nível nacional, concentrando sua visão na sociedade que crescia, tendo como alicerce a casa-grande e a senzala.

Oracy Nogueira, ao tratar das relações raciais em seus estudos, logo no início de sua obra, Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem, de 1954, descreve a situação racial brasileira, no que se refere ao negro (e ao mestiço de negro), defendendo que três correntes explicam o tema: 1) a corrente afro-brasileira, a que deram impulso Nina Rodrigues e Arthur Ramos, podendo ser caracterizada como aquela corrente que dá ênfase ao estudo do processo de aculturação, preocupada em determinar a contribuição das culturas africanas à formação da cultura brasileira; 2) a dos estudos históricos, que procura mostrar como ingressou o negro na sociedade brasileira, a receptividade que encontrou e o destino que nela tem tido, corrente esta em que Gilberto Freyre é o representante principal; e 3) a corrente sociológica que, sem desconhecer a importância dos estudos feitos sob as duas perspectivas,  já mencionadas, se orienta no sentido de desvendar o estado atual das relações entre os componentes brancos e de cor (seja qual for o grau de mestiçagem com o negro ou o índio) da população brasileira. Seu estudo se desenvolve abordando temas que definem como se dão estas relações sociais e, para isso, utiliza-se do que ele chamou de “quadro de referência para interpretação do material sobre relações raciais no Brasil”.

Por fim, a obra Integração do Negro na Sociedade de Classes, de Florestan Fernandes, publicada em 1965, originariamente foi sua tese de cátedra em sociologia e representa uma mudança de inclinação na perspectiva das análises de Florestan sobre as questões raciais no Brasil. Ele situa a problemática na transição da ordem social escravocrata e senhorial para o desenvolvimento posterior do capitalismo, ilustrando a condição de marginalidade dos negros e dos mulatos. Seu universo de análise é a cidade de São Paulo, e representa um retorno ao tema da pesquisa promovida pela Unesco entre os anos de 1949 a 1951, que foi feita em parceria com Roger Bastide[1].  Este estudo revelou um amadurecimento sobre o processo de constituição do Brasil, situando a problemática do negro na passagem da sociedade escravista para a sociedade de classes, onde a exclusão social dos negros era evidente, por tratar-se São Paulo do primeiro centro urbano especialmente burguês, regido por mentalidade mercantil, iniciativa individual e liberalismo econômico, ingredientes que respaldavam o progresso naquele período.
  


1. GILBERTO FREYRE E A VISÃO CULTURALISTA HARMONIOSA DAS RELAÇÕES RACIAIS BRASILEIRAS


 


Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (51, ed. rev. São Paulo: Global, 2006) é um marco teórico da passagem entre o pensamento dos defensores da análise racionalista ou racialista, inaugurando quanto às relações raciais no Brasil e a formação da sociedade brasileira, um pensamento apoiado naquilo que se chamaria a “escola culturalista”. Freyre defendia que a miscigenação era algo positivo, e que havia uma harmonia nas relações entre brancos e negros e também índios, ao menos no plano teórico.

Ele descreve a formação na “América tropical (de) uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio e, mais tarde, de negro na composição”[2]. Explica que o português teve facilidade em empreender a colonização, pois seu passado étnico de “povo indefinido entre a Europa e a África”[3] lhe deu esta predisposição singular.

Baseado na sua história “o que se sente em todo esse desadoro de antagonismo são as duas culturas, a europeia e a africana, a católica, e a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista, encontrando-se no português, fazendo dele, de sua vida, de sua moral, de sua economia, de sua arte, um regime de influencias que se alternam, se equilibram ou se hostilizam”[4].

Com relação ao Brasil, Freyre defendia que os portugueses que aqui chegaram, “não o indispunham, aliás, escrúpulos de raça, apenas preconceitos religiosos (isso) foi para o português vantagem na sua obra de conquista e colonização dos trópicos. Vantagem para a sua melhor adaptação, senão biológica, social”[5]. Isso então estaria intimamente ligada a sua teoria da visão harmoniosa das relações entre negros e brancos, na opinião desenvolvida pelo autor.

Freyre parte, então, de um argumento econômico para explicar as relações raciais na formação da estrutura social. Ou seja, foi a monocultura latifundiária que manteve o senhor, os escravos e os demais agregados unidos naquelas relações interpessoais. Esta “sociedade colonial no Brasil, principalmente em Pernambuco e no Recôncavo da Bahia, desenvolveu-se patriarcal e aristocraticamente à sombra das grandes plantações de açúcar”[6]. “No Brasil a colonização particular, muito mais que a ação oficial, promoveu a mistura de raças, a agricultura latifundiária e a escravidão”[7]. “A família, não o individuo, nem tampouco o Estado, nem nenhuma companhia de comércio é, desde o século XVI, o grande fator colonizador no Brasil”[8]. “A casa-grande foi o centro de união da sociedade, completada pela senzala, formando um sistema econômico, social, político, religioso e inclusive de relações sexuais. A família colonial reuniu, sobre a base econômica da riqueza agrícola e do trabalho escravo, uma variedade de funções sociais e econômicas”[9].

A casa-grande seria então o símbolo da inexistência de conflito entre senhores e escravos. Pois ao dividirem o mesmo espaço entre a casa-grande e a senzala, tinham suas distâncias sociais reduzidas com as constantes relações que mantinham, inclusive sexuais, o que resultou em uma miscigenação que corrigiu a distância social entre negros e brancos no Brasil.

Entretanto, esta miscigenação também trouxe a “desvantagem tremenda da sifilização. Começaram juntas, uma a formar o brasileiro - talvez o tipo ideal do homem moderno para os trópicos, europeu com sangue negro ou índio a avivar-lhe a energia; outra, a deformá-lo”.[10] “A sifilização do Brasil resultou, ao que parece, dos primeiros encontros, alguns fortuitos, de praia, de europeus com índias. Não só de portugueses como de franceses e espanhóis. Mas, principalmente, de portugueses e franceses. Degredados, cristãos-novos, traficantes normandos de madeira de tinta que aqui ficavam, deixados pelos seus para irem se acamaradando com os indígenas, e que acabavam muitas vezes tomando gosto pela vida desregrada no meio de mulher fácil e à sombra de cajueiros e araçazeiros.”[11]

Em sua visão harmoniosa, Freyre afirmava que o negro-escravo era bem alimentado pelos seus senhores para que esse garantisse a produção agrícola e especialmente açucareira. Esta faceta harmoniosa resultou numa influência genética do povo africano que contribuiu para criar sub-raças brasileiras que se destacaram em beleza e vigor físico, como exemplo: mulatas, baianas, crioulas, quadraronas, as oitavanas, cabras de engenho, fuzileiros navais, capoeiras, capangas, atletas, estivadores, jagunços, cangaceiros.”[12]

Assim, a formação da sociedade brasileira se deu fundamentalmente pelas relações raciais, baseadas em uma miscigenação sem preconceitos, pelo patriarcado e pela interpenetração das culturas. Ou seja, esta dinâmica que se processava entre as relações da casa-grande e da senzala agiam de forma a equilibrar os antagonismos da sociedade, e era exatamente neste equilíbrio que se pautava a união e se formava a sociedade. De fato, a perspectiva do triângulo racial de onde se tornavam possíveis as mais variadas combinações, sobretudo sexuais, deixa escapar a concepção de que as culturas simples de índios e negros se subjugariam à complexidade da cultura do branco, o que demarca a hierarquia da estrutura social.

Casa-Grande e Senzala é uma obra importantíssima para entendermos o que realmente aconteceu no Brasil, do seu descobrimento ao processo de colonização, além da ação do colonizador frente ao índio e, também, como aconteceu a escravidão em nosso país. É uma obra marcante, que viria a sofrer severas críticas com o passar dos anos de sua publicação, provocando  com que vários autores dialogassem sobre as relações raciais na formação de nossa sociedade.

 



2. ORACY NOGUEIRA E AS 12 PROPOSIÇÕES PARA AS RELAÇÕES RACIAIS NO BRASIL


 

No seu texto, comparando Brasil e Estados Unidos, Oracy Nogueira relaciona a lógica e o funcionamento do preconceito racial com critérios distintos de classificação social, exorta que nos Estados Unidos, o preconceito está relacionado à descendência; no Brasil, o preconceito está mais expresso na cor da pele. Ou seja, que dependem do ethos de cada sistema cultural considerado.

Segundo sua análise, “considera-se como preconceito racial uma disposição [ou atitude] desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências do preconceito, diz-se que é de origem.”[13]

Portanto, para tratar das relações raciais na formação da sociedade brasileira, impossível é não fazer referência, e repisar, o quanto resumido seja possível, o “quadro de referência” de Oracy Nogueira. “Assim, entre o preconceito racial de marca e o preconceito racial de origem, podem ser apontadas as seguintes diferenças”:[14]

 

1. Quanto ao modo de atuar: O preconceito de marca determina uma preterição, o de origem, uma exclusão incondicional dos membros do grupo atingido em relação a situações ou recursos pelos quais venham a competir com os membros do grupo discriminador. No Brasil, um clube recreativo, pode opor maior resistência à admissão de um indivíduo de cor que à de um branco, porém, se o indivíduo de cor contrabalançar a desvantagem da cor por uma superioridade inegável, em inteligência ou instrução, poderá levar o clube a lhe dar acesso. Já nos Estados Unidos, ao contrário, as restrições impostas ao grupo negro, em geral, se mantêm, independentemente de condições pessoais como a instrução, a ocupação, ou mesmo se o negro for PHD.

 

2. Quanto à definição de membro do grupo discriminador e do grupo discriminado: No Brasil, o preconceito é de marca, e o limiar entre o tipo que se atribui ao grupo discriminador e o que se atribui ao grupo discriminado é indefinido. Assim, a concepção de branco e não-branco varia, no Brasil, em função do grau de mestiçagem, de indivíduo para indivíduo, de classe para classe, de região para região. Nos Estados Unidos, ao contrário, o branqueamento, pela miscigenação, por mais completo que seja, não implica incorporação do mestiço ao grupo branco, para todos os efeitos sociais, o mestiço continuará sendo um "negro".

 

3. Quanto à carga afetiva: onde o preconceito é de marca, ele tende a ser mais intelectivo e estético; onde é de origem, tende a ser mais emocional e mais integral, no que toca à atribuição de inferioridade ou de traços indesejáveis aos membros do grupo discriminado. Assim, no Brasil, a intensidade do preconceito varia em proporção direta aos traços negroides, e tal preconceito não é incompatível com os mais fortes laços de amizade ou com manifestações incontestáveis de solidariedade e simpatia. Nos Estados Unidos, o preconceito tende a ser antes emocional e irracional que intelectivo e estético, assumindo o caráter de antagonismo ou ódio intergrupal. Por isso mesmo, suas manifestações são mais conscientes, tomando a forma de exclusão ou segregação intencional da população negra, em relação aos mais diversos aspectos da vida social – segregação ocupacional, residencial, escolar, em instituições religiosas, culturais, recreativas e de assistência social e sanitária, em logradouros públicos, veículos e outros recintos de acesso público. Em qualquer querela entre um indivíduo de cor e um branco, o público tende a se dividir em dois grupos, cujas atitudes e comportamento são largamente determinados pela filiação racial.

 

4. Quanto ao efeito sobre as relações interpessoais: onde o preconceito é de marca, as relações pessoais, de amizade e admiração cruzam facilmente as fronteiras de marca (ou cor); onde o preconceito é de origem, as relações entre indivíduos do grupo discriminador e do grupo discriminado são severamente restringidas por tabus e sanções de caráter negativo. Assim, no Brasil, um indivíduo pode ter preconceito contra as pessoas de cor, em geral, e, ao mesmo tempo, ser amigo particular, cliente ou admirador de determinada pessoa de cor, sem que isso cause espécie ou implique uma mudança de atitude ou de conceito das demais pessoas em relação a ele, pois que não envolve uma redefinição de atitude ou de ponto de vista de sua parte. Nos Estados Unidos, o branco que mantém relações de amizade com pessoas de cor é pejorativamente chamado de negro-lover ou de "negro voluntário", além de estar sujeito a sanções mais drásticas. A pessoa branca que se casa ou se une com uma de cor, socialmente, passa a ser negra, tornando-se objeto de discriminação e sendo relegada ao mundo social dos negros.

 

5. Quanto à ideologia: onde o preconceito é de marca, a ideologia é, ao mesmo tempo, assimilacionista e miscigenacionista, onde é de origem, ela é segregacionista e racista. No Brasil, há uma expectativa geral de que o negro e o índio desapareçam, como tipos raciais, pelo sucessivo cruzamento com o branco; e a noção geral é de que o processo de branqueamento constituirá a melhor solução possível para a heterogeneidade étnica do povo brasileiro. Nos Estados Unidos, a expectativa da maioria, em relação às minorias sujeitas a discriminação, é de que se mantenham endogâmicas e nucleadas, constituindo cada qual um mundo social à parte, de modo a se imiscuírem o mínimo possível com aquela, cuja "pureza" racial e característicos se considera necessário preservar.



6. Quanto à distinção entre diferentes minorias: onde o preconceito é de marca, o dogma da cultura prevalece sobre o da raça; onde o preconceito é de origem, dá-se o oposto. Consequentemente, onde o preconceito é de marca, as minorias menos endogâmicas e menos etnocêntricas são favorecidas, onde o preconceito é de origem, ao contrário, há maior tolerância para com as minorias mais endogâmicas e mais etnocêntricas. No Brasil, frequentemente, se ouve alegar, como agravante, em relação aos japoneses, sírios e outros grupos de imigrantes, que os mesmos "não se casam com brasileiros" e procuram preservar seu próprio patrimônio cultural – língua, religião, costumes. Nos Estados Unidos, ao contrário, quando se comparam duas ou mais minorias, frequentemente se aponta como atenuante o "estar ela satisfeita consigo mesma" e, portanto, o "não estarem os seus membros procurando impor-se aos outros grupos". De um modo geral, nos Estados Unidos, há maior tolerância (que no Brasil) para com imigrantes que falam, mesmo em público, sua própria língua, que conservam sua própria música etc.

 

7. Quanto à etiqueta: onde o preconceito é de marca, a etiqueta de relações inter-raciais põe ênfase no controle do comportamento de indivíduos do grupo discriminador, de modo a evitar a susceptibilização ou humilhação de indivíduos do grupo discriminado, onde é de origem, a ênfase está no controle do comportamento de membros do grupo discriminado, de modo a conter a agressividade dos elementos do grupo discriminador. Assim, no Brasil, não é de bom tom "puxar o assunto da cor", diante de uma pessoa preta ou parda. Evita-se a referência à cor, do mesmo modo como se evitaria a referência a qualquer outro assunto capaz de ferir a susceptibilidade do interlocutor. Nos Estados Unidos, a ênfase da etiqueta está em expressar a assimetria das relações entre brancos e negros. Assim, o branco exige que o negro o chame de mister e a ele se dirija mencionando-lhe o sobrenome, porém, o negro tem de se conformar em ser chamado pelo branco pelo primeiro nome, sem o uso daquela expressão. O comportamento de brancos e negros, uns para com os outros, é estritamente regulamentado, de modo a salientar a desfavorável posição dos últimos.

 

8. Quanto ao efeito sobre o grupo discriminado: onde o preconceito é de marca, a consciência da discriminação tende a ser intermitente; onde é de origem, tende a ser contínua, obsedante. Em geral, o homem de cor, no Brasil, toma consciência aguda da própria cor nos momentos de conflito, quando o adversário procura humilhá-lo, lembrando-lhe a aparência racial, ou por ocasião do contato com pessoas estranhas, podendo passar longos períodos sem se envolver em qualquer situação humilhante, relacionada com a identificação racial. Nos Estados Unidos, a consciência da própria identificação racial, por parte do negro, é contínua, permanente, e envolve três tendências que se interpenetram: 1) uma preocupação permanente de auto-afirmação; 2) uma constante atitude defensiva; e 3) uma aguda e peculiar sensibilidade a toda a referência, explícita ou implícita, à questão racial.

 

9. Quanto à reação do grupo discriminado: onde o preconceito é de marca, a reação tende a ser individual, procurando o indivíduo "compensar" suas marcas pela ostentação de aptidões e característicos que impliquem aprovação social tanto pelos de sua própria condição racial (cor) como pelos componentes do grupo dominante e por indivíduos de marcas mais "leves" que as suas; onde o preconceito é de origem, a reação tende a ser coletiva, pelo reforço da solidariedade grupal, pela redefinição estética etc. Portanto, o que vemos no Brasil, é que a experiência decorrente do "problema da cor" varia com a intensidade das marcas e com a maior ou menor facilidade que tenha o indivíduo de contrabalançá-las pela exibição de outras características ou condições – beleza, elegância, talento, polidez etc. Nos Estados Unidos, a luta do negro, como negro, seja qual for sua aparência, é, sobretudo, uma luta coletiva. As próprias conquistas individuais são vistas como verdadeiras tomadas de novas posições em nome do grupo todo. Em todo o contato com pessoas brancas, mesmo nas organizações destinadas a combater as restrições raciais e a melhorar as relações das diferentes minorias entre si e com a maioria, o indivíduo de cor assume o papel de representante – vanguardeiro ou diplomata – de seu próprio grupo.

 

10. Quanto ao efeito da variação proporcional do contingente minoritário: onde o preconceito é de marca, a tendência é se atenuar nos pontos em que há maior proporção de indivíduos do grupo discriminado, onde é de origem, ao contrário, a tendência é se apresentar sob forma agravada, nos pontos em que o grupo discriminado se torna mais conspícuos pelo número. Com efeito, no Brasil, a impressão generalizada é a de que os indivíduos de cor esbarram com manifestações mais frequentes e ostensivas de preconceito em São Paulo, onde constituem uma cota mais reduzida sobre o conjunto da população, do que, por exemplo, na Bahia ou no Rio de Janeiro.  Nos Estados Unidos, ao contrário, o negro está muito mais sujeito a restrições nos pontos em que representa uma cota mais numerosa da população.

 

11. Quanto à estrutura social: onde o preconceito é de marca, a probabilidade de ascensão social está na razão inversa da intensidade das marcas de que o indivíduo é portador, ficando o preconceito de raça disfarçado sob o de classe, com o qual tende a coincidir, onde o preconceito é de origem, o grupo discriminador e o discriminado permanecem rigidamente separados um do outro, em status, como se fossem duas sociedades paralelas, em simbiose, porém irredutíveis uma à outra. Nos Estados Unidos, é tal a impermeabilidade que se observa entre os grupos, branco e negro, que o emprego do termo "casta" com relação a tais grupos e, portanto, com referência à organização social norte-americana, tem sido aceito por muitos estudiosos destas relações.

 

12. Quanto ao tipo de movimento político a que inspira: onde o preconceito é de marca, a luta do grupo discriminado tende a se confundir com a luta de classes; onde é de origem, o grupo discriminado atua como uma "minoria nacional" coesa e, portanto, capaz e propensa à ação conjugada. Assim, no Brasil, os movimentos sociais e políticos que têm apelado para a consciência de grupo da população de cor, como fonte de motivação para o proselitismo, têm resultado num fracasso. Nos Estados Unidos, a minoria negra não apenas atua como se fosse uma nacionalidade em luta por um status, como tem sido equiparada a uma minoria nacional por estudiosos e políticos.

 

Contextualizando o “quadro de referência” de Oracy Nogueira, podemos entender que o preconceito que prevalece no Brasil é aquele baseado no preconceito de cor, sendo chamado por ele de preconceito de marca, que é exercido em relação à aparência física dos indivíduos discriminados. E nos Estados Unidos, diferentemente, o preconceito racial que prevalece é aquele baseado na origem, sendo chamado por ele de preconceito de origem, quando o preconceito acontece por dedução de que o discriminado tem uma ascendência de certo grupo étnico.

Enfim, concluindo, estes são os dois tipos ideais desenvolvidos por Oracy Nogueira para apontar a existência do preconceito racial presente no Brasil, que influenciou diretamente na formação de nossa sociedade.

 

3. FLORESTAN FERNANDES, O DILEMA E O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL NAS RELAÇÕES RACIAIS NO BRASIL


 

A obra, A Integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes, teve papel fundamental ao desmistificar o caráter harmonioso da escravidão no Brasil, pregado por Gilberto Freyre. No seu texto, Florestan busca comprovar que, após o fim do modo de produção escravista, os negros continuaram marginalizados e sem condições claras de ascender socialmente na sociedade de classes que, então, se constituía no país. Estabelece o conceito do “mito da democracia racial” e posiciona o que seria o dilema racial brasileiro.

          Logo na introdução, o autor apresenta o ponto crucial segundo sua visão, nada romântica, das consequências da desagregação do regime escravocrata na formação de uma futura sociedade brasileira. Com a abolição, os antigos “donos” dos escravos “foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos...” “O liberto se viu convertido, sumária e abruptamente, em senhor de si mesmo...” “embora não dispusesse de meios materiais e morais para realizar essa proeza, nos quadros de uma economia competitiva.”[15] (p. 29)

As relações raciais, na ótica do autor, vão aparecer no item 2, do capítulo III, intitulado O dilema racial brasileiro. Mas, antes de chegar ao dilema das raças no Brasil, neste capítulo III ele constrói, no item 1, a ideia do Mito da democracia racial, depois de uma intensa análise que abordou desde dados demográficos, que apontam uma imensa maioria branca (dados demográficos de São Paulo), até chegar à abordagem sobre a heteronomia racial na sociedade de classes, explicitando o quanto os negros e mestiços estavam sujeitos à vontade de uma coletividade branca.

O “Mito da democracia racial”, abordado no item 1., explica que “a perpetuação, em bloco, de padrões de relações raciais elaborados sob a égide da escravidão e da dominação senhorial, tão nociva para o homem de cor, produziu-se independentemente de qualquer temor, por parte dos brancos”.[16] Defende que, “por paradoxal que pareça, foi a omissão do branco – e não a ação – que redundou na perpetuação do status quo ante.”[17] Assim, segundo o autor, esta omissão que não provocou na sociedade brasileira, como em outros países, sentimentos de intolerância e de ódios raciais foi que manteve o homem branco ileso da ameaça do homem negro quanto a posição daquele na estrutura de poder da sociedade. Era como se todo aquele padrão de relações raciais da escravidão, ainda que ela não existisse mais, fosse legítima pela sua própria história na sociedade brasileira. Assim, “no bojo desses padrões de comportamentos, passaram para a nova era histórica e se revitalizaram normas de velha etiqueta de relações raciais, distinções e prerrogativas sociais que [naturalmente] proporcionavam direitos e garantias sociais das raças em presença às posições que seus componentes ocupavam na estrutura de poder da sociedade, representações que legitimavam, tanto racial, quanto material e moralmente, tais distinções e prerrogativas”[18] e, de alguma maneira, “acorrentava-se o homem de cor aos grilhões invisíveis de seu passado, a uma condição sub-humana de existência e a uma disfarçada servidão eterna.”[19]

Desta forma, Florestan Fernandes vai definir o completo significado do dilema racial brasileiro, como a impossibilidade de as relações de classe suplantarem as desigualdades raciais, absorvendo-as. Nesse sentido, é importante observar o que diz o próprio autor:

 

“Delineia-se claramente, assim, o dilema racial brasileiro”. Visto em termos de uma das comunidades industriais em que o regime de classes sociais se desenvolveu de modo mais intenso e homogêneo no Brasil, ele se caracteriza pela forma fragmentária, unilateral e incompleta com que esse regime consegue abranger, coordenar e regulamentar as relações raciais. Estas não são totalmente absorvidas e neutralizadas, desaparecendo atrás das relações de classes. Mas sobrepõe-se a elas, mesmo onde e quando as contrariam, como se o sistema de ajustamentos e de controles sociais da sociedade de classes não contivesse recursos para absorvê-las e regulá-las socialmente.

Caracterizando-se o dilema racial brasileiro deste ângulo, ele aparece como um fenômeno estrutural de natureza dinâmica. Ele se objetiva nos diferentes níveis das relações raciais. Por isso, seria fácil reconhecê-lo nos lapsos das ações dos indivíduos que acreditam “não ter preconceito de cor”; nas inconsistências das atitudes, normas e padrões de comportamento inter-racial; nos contrastes entre a estereotipação negativa, as normas ideais de comportamento e os comportamentos efetivos nos ajustamentos raciais; nos conflitos entre os padrões ideais da cultura, que fazem parte do sistema axiológico da civilização brasileira; nas contradições entre os tipos ideais de personalidade básica modelados através desta civilização, etc. Mas, ele se originou de uma causa geral e comum: os requisitos estruturais e funcionais da sociedade de classes só se aplicam fragmentária, unilateral e incompletamente às situações de convivência social em que os socii se apresentam, se consideram e se tratam como brancos e negros.

Em outras palavras, as estruturas da sociedade de classes não conseguiram, até o presente, eliminar, normalmente, as estruturas preexistentes na esfera das relações raciais, fazendo com que a ordem social competitiva não alcance plena vigência na motivação, na coordenação e no controle de tais relações.”[20]

 

Em outras palavras, Florestan conclui de forma muito clara e objetiva de que não existe democracia racial no Brasil e que isto não passa de uma ideologia que busca ocultar a face racista e da dominação de classes que é praticada, naturalmente, pelas elites brasileiras, com um fundo legitimado em sua própria gênese heteronômica.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS


  

Como sabemos, Gilberto Freyre desenvolve Casa-Grande e Senzala nos idos dos anos 30, com uma perspectiva a partir da sua posição de homem branco e senhor. Ainda que ele tenha enaltecido a presença do Negro, sua nostalgia pela cultura patriarcal transparece sua posição social, pois este tempo, na verdade, foi muito difícil para a maioria dos brasileiros, principalmente para o Negro. Ele defende que a casa-grande foi o centro de coesão da sociedade. Que a casa-grande, completada pela senzala, representava todo um sistema econômico, social, político, religioso e sexual. E que a miscigenação existente corrigiu a distância social entre negros e brancos no Brasil.

Já Oracy Nogueira, cerca de 20 anos depois, construiu um quadro de referência, segundo sua ótica, que pudesse ser aplicado como um conjunto de hipóteses aos estudos das relações raciais no Brasil. Criou doze proposições que contribuíram para estabelecer as características diferenciadoras de dois tipos de preconceito e de dinâmica das situações raciais na formação da sociedade brasileira, comparando-a com a sociedade norte-americana. Para isso, dá o nome de "preconceito de marca" à forma como tais características se apresentam no Brasil e de "preconceito de origem" à maneira pela qual elas se constituem nos Estados Unidos.

Cada autor em seu tempo e, finalmente, Florestan Fernandes defendeu a tese, A integração do negro na sociedade de classes, em 1964, para ingressar na cadeira de Sociologia I da USP, sua perspectiva sobre a desintegração das relações escravistas que representavam a tradição, e a passagem para uma modernidade edificada sobre o alicerce da sociedade de classes, indicava a situação de marginalidade que enfrentava o negro dentro do sistema de relações sociais. Neste sentido, em A integração do negro na sociedade de classes, se contrapõe à ideia de democracia racial defendida em Casa-Grande e Senzala.

Enquanto Freyre interpreta as relações raciais no Brasil como harmoniosas e permissivas, Florestan atenta para a inadequação do preconceito e da discriminação num país que se deseja moderno, e Oracy tentou estabelecer uma metodologia de análise destas relações.

Vemos que o pensamento social brasileiro nunca conseguiu chegar a um consenso com relação às questões raciais no país, cada um em seu tempo. A linha que demarca alteridades entre pretos e brancos foi tratada diferentemente por cada autor, explicitando seus pensamentos, do mais otimista (Freyre), do pragmático (Oracy), ao pessimista realista (Florestan).


BRAZILIAN SOCIAL THOUGHTS:

THE RACIAL RELATIONSHIP IN BRAZIL IN THE COMPOSITION OF THE BRAZILIAN SOCIETY BASED ON THOUGHTS FROM GILBERTO FREYRE, ORACY NOGUEIRA E FLORESTAN FERNANDES

 

 ABSTRACT


 


This paper aims to expound the thoughts of these renowned authors and discussing his views on relations perpetrated by colonial society as regards relationship, especially among whites, blacks, and their descendants, covering the main aspects of the works from each thinker and his influences on formation of the Brazilian society.

 

 

 

KEYWORDS: race relations, slavery, sociability, prejudice, classes.

 

 


NOTAS BIBLIOGRÁFICAS


 



[1] Francês, Roger Bastide (1898-1974) chegou ao Brasil em 1938 para ocupar a cátedra de Sociologia I, no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo deixada vaga pelo professor Claude Lévi-Strauss; Bastide aqui esteve até 1984, quando partiu definitivamente para a França onde foi lecionar primeiramente na École Pratique des Hautes Etudes, 6e Section, hoje École des Hautes Études en Sciences Socielies; nomeado em seguida para a Universidade de Paris, cátedra de Sociologia, também foi durante mais de dez anos professor no Institut des Hautes Études de l 'Amérique Latine. Florestan Fernandes assumiu a vaga com a saída de Bastide.
[2] FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e Senzala. 51 ed. rev. São Paulo: Global, 2006, p. 65.
[3] Ibden, p. 66.
[4] Ibden, p. 69.
[5] Ibden, p. 74-75.
[6] Ibden, p. 79.
[7] Ibden, p. 80.
[8] Ibden, p. 81.
[9] Ibden, p. 85.
[10] Ibden, p. 110.
[11] Ibden, p. 111.
[12] Ibden, p. 55.
[13] NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil, p. 292. In. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1.
[14] Ibden, p. 293-304.
[15] FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classe. ed. 1. vol. 1. Globo, 2008, p. 29
[16] Ibden, p. 304.
[17] Ibden, p. 305.
[18] Iden, p. 305.
[19] Ibden, p. 309.
[20] Ibden, p. 571-572.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


A PROLETARIZAÇÃO DO TRABALHO MÉDICO




RESUMO


  

O estudo deste tema objetivará esclarecer os contornos do mercado de trabalho do médico. Empreenderemos uma análise sobre as mudanças no contexto do trabalho deste profissional e as tendências deste mercado, abordando a visão sobre a transição que vem ocorrendo, deixando este trabalhador de ser o típico profissional liberal para uma condição de assalariado, evidenciando o caminho crescente da proletarização do trabalho do médico nos conceitos marxistas, quanto ao capital e economia.

  

PALAVRAS-CHAVE: Trabalho. Saúde. Proletarização.



INTRODUÇÃO


 

 

A profissão do médico sempre teve um papel importante ao longo da história de todas as sociedades. As exigências de uma formação longa que envolve vários anos de estudos, de prática, combinadas ao denso conhecimento teórico e com um aprendizado empírico que se renova periodicamente, tiveram como natural contrapartida o reconhecimento pela sociedade de sua essencialidade para a humanidade. As doenças e o medo da morte contribuíram para consolidar a sua importância e poder, gerando na sociedade crenças onde, para uns era um “santo”, um entregador de “dádivas”, para outros, especialmente os mais humildes, um verdadeiro “deus capaz de trazer o doente de um estado de quase morte para vida”.

Estudos apontam que, a partir de meados do século XX, começa o declínio da profissão de médico como carreira liberal. O século anterior, período de uma medicina ainda em fase de transição para a especialização, marca o predomínio de um atendimento realizado principalmente no consultório particular, não acessível à grande maioria da população. Era o conhecido “médico da família”.

A prática e o próprio conceito de saúde pública são fenômenos recentes, mesmo nos países desenvolvidos. Aliás, a definição mais corrente e aceita de saúde pública é de Edward Amory, médico americano, que em 1920 definiu saúde pública como “o controle das infecções, o saneamento do meio, a educação dos indivíduos nos princípios da higiene pessoal, a organização dos serviços médicos e de enfermagem para o diagnóstico precoce e o pronto tratamento das doenças e a criação de uma estrutura social que assegure a cada indivíduo na sociedade um padrão de vida adequado à manutenção da saúde” [1].

A saúde pública praticamente inexistiu no Brasil nos tempos de colônia. Em 1789, registros históricos apontam que o Rio de Janeiro tinha apenas quatro médicos e as duas primeiras escolas de medicina do país foram criadas em 1808 com a vinda da família real portuguesa, sendo esta única ação governamental em prol da saúde da população até a República.

Mais adiante, com o advento da Lei Orgânica da Previdência Social, de 1960, e a criação do Instituto Nacional de Previdência Social em 1967, que unificou os Institutos de Aposentadoria e Pensões (os IAPs) marcam o início da assistência massiva à saúde dos cidadãos em geral, via aporte de recursos públicos, ainda que tímido e insuficiente para as reais necessidades da população.

Naquela época, ainda existia a mazela da discriminação entre o campo e a cidade e algumas outras categorias. Apenas os trabalhadores integrantes da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) foram beneficiados, ficando de fora os trabalhadores rurais, os servidores públicos e os empregados domésticos. Principalmente os trabalhadores rurais, por muitos anos estiveram excluídos de qualquer auxílio sistemático à saúde. Somente à partir de 1963 passaram a ter direito à aposentadoria e a uma tímida e insuficiente assistência via o FUNRURAL (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural).

A criação do Sistema Único de Saúde (SUS), com a Constituição de 1988, estendeu os benefícios assegurados apenas aos participantes do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) a toda população brasileira. Entretanto, a verdade é que isso aconteceu apenas formalmente. O direito aos serviços e a assistência à saúde passaram, pelo menos constitucionalmente, a ser um direito de todo cidadão. Estas garantias passaram, então, a dar nova conotação ao comportamento da sociedade que, não se conformando hoje com a situação que se encontram os serviços de saúde, começaram a buscar uma maneira de exigir que a saúde lhe seja entregue, empurrando o médico, de “santo” ou “deus”, ao vilão da história.

O lento processo de desenvolvimento da saúde pública no Brasil começou então a se deparar com as radicais mudanças ocorridas na ciência médica nas últimas décadas. A medicina tornou-se dependente de outras áreas de conhecimento. A notável evolução da genética, da biologia, da indústria farmacêutica, da engenharia e da informática foi incorporando parcelas crescentes de capital e de tecnologia às práticas médicas. A rápida especialização e as crescentes necessidades de aportes de capital e os investimentos de grandes operadores capitalistas da área da saúde foram deslocando o conhecimento, a experiência e o trabalho médico do consultório para a Instituição de Saúde.

Embora imprescindível e essencial, o médico foi se adaptando às mudanças do novo modo de produção do serviço médico, cada vez mais dependente de novas tecnologias e de equipamentos complexos e de instituições de grande porte. O capital assume então crescente importância no custo do serviço, empurrando a atividade médica do seu caráter individual de cunho liberal para o trabalho especializado, coletivo e assalariado. O médico profissional liberal, símbolo de uma pequena burguesia outrora bem sucedida, entra em declínio e, em apenas poucas décadas, perdeu espaço para as grandes corporações de medicina e saúde.

Assim, as mudanças no mercado de trabalho, provocadas pela reestruturação produtiva a partir dos anos 80, vêm afetando diversas categorias profissionais, incluindo os de saúde. Diante disso, o que vemos é que os médicos que tinham alcançado um status elevado entre os profissionais de outras categorias, tem se submetido na atualidade a processos de precarização nas relações de trabalho. E, submetendo-se ao assalariamento, isso vem afetando sua histórica autonomia empregatícia. O objetivo deste trabalho, portanto, é apontar e explorar com dados empíricos este processo de assalariamento da profissão do médico, para evidenciar no que tem afetado esta transformação e a sua relação com a sociedade capitalista em que hoje vivemos, sob a ótica marxista.

 

 


1. AS MUDANÇAS NO MERCADO DE TRABALHO


 

 

1.1. Perfil e Tendências do Profissional Médico


 

 

O mundo do trabalho nas ultimas décadas passa por mudanças em todos os âmbitos, as quais provocaram inúmeros reflexos em outros setores da sociedade, especialmente no exercício de várias profissões. O desemprego estrutural, provocado muitas vezes pelo surgimento de novas tecnologias, repercute na diminuição da oferta de trabalho e na reconfiguração de postos de trabalho.

Nenhuma categoria profissional ficou imune às transformações resultadas da reestruturação produtiva e o perfil do trabalhador, em geral, é alvo de alterações. Os profissionais da área de saúde também sofrem as consequências destas transformações produtivas, incluindo os médicos, que estão se submetendo a processos de crescente assalariamento e relações de mercado autônomas “atípicas”, em razão das formas de tomada de serviços médicos que, em muitos casos, nem configuram um trabalho liberal mas, tão pouco, uma relação de emprego formal. Muito se sujeitam a uma forma de assalariamento fictício, onde são convidados a fazer parte de uma sociedade ou cooperativa, mas, na verdade, trabalham por um salário. Tal relação de emprego fictícia, a princípio, só é boa para o empresário da saúde, que diminui a carga de impostos incidentes sobre o negócio.

Tais formas de tomada de serviços médicos têm algumas especificidades, se comparado com os de outras categorias. A autorregulação inerente a estes profissionais produzem várias categorias de assalariamento, criadas para se adaptarem à natureza da profissão, que a torna particular pelo fato de em alguns casos manter autonomia no exercício laboral, mediante uma relação salarial com inúmeras configurações, como a acima mencionada, graças a flexibilidade deste profissional, legalmente considerado profissional liberal. Entretanto, estas mudanças nas relações de trabalho de um profissional considerado de maior status na área de saúde afetarão, consequentemente, todo o sistema de saúde e os tomadores destes serviços, neste caso, a população em geral.

Uma pesquisa coordenada em 1996 pela socióloga Maria Helena Machado apresenta um perfil e tendências da profissão do médico no Brasil, e discutiu aspectos inéditos e importantes sobre as transformações desta categoria. Esta pesquisa retratou o profissional de Medicina por intermédio de uma amostra significativa. Com base em informação captada nessa pesquisa, foram retiradas algumas configurações importantes da classe médica que servem para indicar tendências que vem se moldando[2]:

 

“Em números, o mercado de trabalho médico do Brasil tem a seguinte estrutura: 69,7% dos médicos têm atividade no setor público (seja na esfera federal, estadual ou municipal), apresentando regionalmente a seguinte distribuição: norte (82,4%); nordeste (81,1%); sudeste (66,8%); sul (63,9%) e centro-oeste (74,7%).

Por outro lado, 59,3% trabalham no setor privado, sendo 51,3% na região norte, 55,8% no nordeste, 59,9% no sudeste, 61,7% no sul e 59,9% no centro-oeste. Além disso, no Brasil, 74,7% exercem atividade "liberal" em seus consultórios privados, principalmente do tipo "próprio individual" (sendo 72,3% no norte, 69,5% nordeste, 73,9% no sudeste, 84,2% no sul e 72,9% no centro-oeste). Tais cifras demonstram um mercado de serviços equilibrado entre os três setores de atuação médica. Os dados evidenciam também o multiemprego, para a maioria. Além disso, 13,5% dos médicos brasileiros declararam ter outra fonte de renda além da Medicina. Já nas regiões, a questão de "outra fonte de renda" tem o seguinte comportamento: região norte (14,5%), nordeste (14,2%), sudeste (12,4%), sul (15,8%) e centro-oeste (16,3%).

Salienta-se que no Brasil, 75,6% dos médicos têm até três atividades e 24,4% apresentam-se com quatro ou mais atividades profissionais médicas, comportamento este observado em todas as regiões. O consultório destaca-se como a modalidade de trabalho que mais se vincula à tradicional condição de "profissional liberal". No entanto, se os percentuais são elevados (entre 70 e 85% para todas as regiões do país), isto não significa, necessariamente, o exercício pleno da atividade liberal, visto que entre 75 e 90% dos médicos das regiões brasileiras declaram depender diretamente dos convênios com empresas de saúde, medicina de grupo, cooperativas médicas, entre outros, para a manutenção de seus consultórios em funcionamento.  Fato curioso é a questão do gênero na determinação desta modalidade de trabalho médico, já que apenas 29,4% dos que têm atividade em consultório são mulheres. Por outro lado, dentre aqueles que exercem atividade em consultório, pouco menos da metade (45,2%) tem menos de 40 anos.

Quanto ao rendimento mensal proveniente do trabalho médico (Tabela 3.2), a média nacional é de US$1.280, sendo US$ 1.163 (nas capitais) e US$ 1.600 (nos interiores). A renda mensal desejada pelos médicos foi de US$4.608 dólares, sendo US$4.240 (nas capitais) e US$5.575 (nos interiores). O piso salarial sugerido para uma jornada de 20 horas semanais (US$1.381), sendo maior nas capitais (US$1.412) do que nos interiores (US$ 1.320). Da mesma forma, a questão salarial e de rendimentos dos médicos varia de região para região.

Os valores modais de renda mensal declarada foram de US$ 1.429,8 para a região norte; US$1.250,3 para o nordeste; US$ 1.252,1 para o sudeste; US$ 1.400,6 para o sul e US$ 1.371,1 para o centro-oeste.

Por outro lado, a renda mensal desejada apresentou as seguintes modas: norte (US$ 5.409,7), nordeste (US$ 4.362,4), sudeste (US$ 4.350,7), sul (US$ 4.745,8) e centro-oeste (US$ 5.988,4) e o piso salarial proposto, oscilou de US$ 1.464,1 (norte) até US$ 1.216,2 (nordeste), US$ 1.415,2 (sudeste); US$ 1.302,7 (sul) e US$ 1.464,8 (centro-oeste).

 

Resumindo, o estudo apresenta tendências que vem se confirmando, tais como, que o médico atualmente transita em empregos públicos mais que privados; que, cada vez mais, assume multiempregos em busca de maior renda, pois é clara, segundo a pesquisa, a discrepância entre o salário almejado e o salário real oferecido pelo mercado; tende a exercer a profissão cada vez mais jovem e, outro dado a observar, é que a crescente participação do contingente feminino é inevitável.

Isto posto, seria plausível estabelecermos uma relação entre a insatisfação do médico com a diminuição da renda em seus consultórios e o vínculo empregatício assumido por estes dentro dos hospitais ou sociedades médicas corporativas e, finalmente, como essa tendência de caráter sócio econômica afeta a vida daqueles que tomam o serviço médico, ou seja, a população em geral.

 

 

1.2. Médico: Profissional Liberal ou com Vínculo Empregatício


 

 

Lamentavelmente, não há registro de atualização da pesquisa acima. Entretanto, ela é suficiente para suportar atualmente a tese de que pode estar havendo uma crescente proletarização[3] do médico, ou seja, uma dependência cada vez maior por parte desses profissionais de um “emprego” que lhes garanta um salário determinado, em detrimento ao consultório, que o caracteriza como profissional liberal.

Ainda, uma das discussões que está em pauta é sobre que vínculos fazem do médico um assalariado, um autônomo ou um profissional liberal. Maria Helena Machado afirma, por exemplo, que “no mundo do trabalho médico é praticamente impossível propor análises de tipos puros (assalariado ou liberal)”[4].

Na verdade, se em um passado recente, o médico era totalmente autônomo na sua conduta profissional, no saber e nos procedimentos com o paciente, nos dias atuais, vários são os fatores que põem em xeque sua autonomia e independência. Empurrado pela força econômica de diversos atores da área da saúde, especialmente os planos de saúde, cooperativas e grandes grupos hospitalares, o médico tem deixado de ser um profissional que exerce o controle sobre sua clientela e autorregula o seu trabalho, tornando-se, cada vez mais, dependente de uma estrutura de serviços e equipamentos de grande porte.

É inegável que o médico parece continuar sendo autônomo no modo de exercitar o seu trabalho através do conhecimento que possui. Mas, a cada dia, tende a ser assalariado, tanto do setor público, quanto do setor privado, por ter que obedecer as regras e normas inerentes a cada entidade institucional a que se vincula. Importante é, também, observar que o setor privado possui parcerias com o setor publico, o que, muitas vezes, dificulta caracterizar determinadas situações empregatícias, bem como definir a proveniência da renda deste profissional de saúde.

Uma questão muito peculiar neste tema é a dos planos de saúde e suas formas de remunerar, que são variadas. Há uma queixa muito grande dos médicos, e alguns não aceitam filiação a quaisquer planos, alegando que não compactuam com o desrespeito destas instituições, que não valorizam o trabalho do médico.

Entretanto, de fato, os planos de saúde se tornaram agenciadores e grandes concorrentes dos consultórios, já que arrebanham hoje uma parcela considerável daqueles que poderiam pagar por uma consulta privada. Além disso, estes planos estão construindo seus próprios hospitais, clínicas e laboratórios, para forçar os clientes a procurar suas instalações, canalizando o cidadão que toma o serviço médico, da medicina privada para a medicina institucional.

Assim, é importante ressaltar que o médico que não quer ser “empregado” ou estar vinculado a um plano de saúde, enfrenta forte concorrência para sua sustentabilidade apenas com o trabalho em seu consultório.


2. O CONTEXTO DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL


 

 

A medicina que se caracterizou ao longo da história como uma profissão com elevado status na hierarquia social, com alto prestígio do profissional liberal, que teve sempre grande destaque nos diversos campos que compõem o tecido social, vem enfrentando nos últimos anos uma realidade que vem mudando este contexto, observando-se atualmente uma crescente perda de autonomia, uma tendência ao assalariamento e também ampliação da medicina de grupo e das cooperativas de assistência.

Grande parte destas mudanças são proporcionadas por um investimento massivo de empresas privadas, principalmente das corporações multinacionais, planos de saúde e empresários no campo da saúde. Acrescente-se a isso a expansão dos serviços estatais e a influência das políticas públicas no mercado de trabalho médico. Também as transformações atuais na informática e as descobertas técnico-científicas impulsionam ao mesmo tempo ao aparecimento de inúmeras especialidades e subespecialidades, o que gera importantes reestruturações na formação e prática profissional.

A formação e a prática profissional é outra das interferências nas mudanças que o mercado de trabalho vem sofrendo. A medicina passou a incorporar, graças a novas tecnologias de diagnósticos, os especialistas, e, assim, criou projetos pedagógicos para estender a formação médica através da residência médica, para a respectiva especialização. Este sistema é altamente interessante para os hospitais, que passam a ter um corpo clínico permanente e extremamente dedicado e de baixo custo, ávido por praticar e aprender para tentar se inserir no mercado de trabalho.

Entretanto, graças a estas especializações, aos avanços tecnológicos dos dias atuais e das técnicas de diagnósticos para o auxilio dos procedimentos médicos, há também uma crescente responsabilidade do profissional sobre os resultados desejados, positivos, claro, onde a cobrança pelo êxito é muito grande.

Isso tem afastado o paciente e o médico, e, a verdade é que, um atendimento desatencioso e impessoal, baseado em muitos exames, frustra mais as expectativas do tomador do serviço do que os próprios resultados indesejáveis do tratamento. Ademais, acrescente-se a isso, o fato de que, atualmente, os pacientes estão mais informados e menos submissos à autonomia que o médico gozava há décadas atrás, em relação aos diagnósticos feitos por ele. Isso tem gerado, tantas vezes, uma repercussão negativa de seu trabalho como médico, refletida na vida profissional, pessoal, e familiar.

Neste contexto o médico carrega o drama de que é um dos profissionais que dificilmente pode errar pois, pelo fato de trabalhar com a vida humana, um erro pode ser fatal para o paciente e para sua carreira. Na realidade, vale ressaltar, que a grande maioria que clinica vive hoje sob pressão, sobretudo do ponto de vista jurídico. Hoje há advogados especializando-se em causas contra médicos.

Apenas para ilustrar, pesquisa realizada nos Tribunais de Justiça dos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, apresentada no IV Congresso EndoRio, em Conferência sobre o tema Responsabilidade Civil e o Erro Médico, em 11 e 12 de setembro de 2009[5], demonstram que até meados dos anos 2000, praticamente não existiam as chamadas ações indenizatórias por erro médico e, após uma mobilização da sociedade, que criou as associações de pacientes vitimas de erro médico[6], que se sentiam lesados pelo serviço prestado, estas demandas jurídicas cresceram exponencialmente.

Nesta pesquisa apenas foi possível mapear os dados de processos por má prática médica, que tiveram recursos a 2ª instância destes tribunais, já que ainda não existem estatísticas para a 1ª instância. Supõe-se que o número de processos que não chegam a ter recursos, ou seja, são resolvidos logo no primeiro julgamento, sejam pelo menos 10 vezes mais do que os que chegam ao segundo julgamento. O Estudo pesquisado apontou um crescimento percentual para São Paulo de 204% de aumento entre 2003 e 2008. E para o Rio de Janeiro o aumento foi de mais de 800% entre os anos de 2000 a 2008.

Entre outras das características mais salientes do processo de transformação do mercado de trabalho médico, está a urbanização, o rejuvenescimento e a maior participação das mulheres nesta categoria de profissionais.

Quanto a concentração desta força de trabalho, cada vez mais os médicos se concentram em alguns estados do Brasil e nas grandes cidades, enquanto inúmeros municípios do país não têm sequer um desses profissionais. “Aproximadamente 80% do total de médicos existentes exercem suas atividades em somente sete estados e, principalmente, nas grandes cidades”. Maria Helena Machado aponta, também, nas suas análises, conforme visto no item anterior, o aumento do contingente de médicos e médicas jovens no mercado de trabalho, pois atualmente 70% dos profissionais têm menos de 45 anos de idade. Eles ingressam no mercado de trabalho, na sua maioria, entre 26 e 28 anos e somente 10% têm mais de 60 anos, o que caracteriza uma pirâmide etária predominantemente jovem na profissão. A tendência à feminilização da carreira médica no Brasil (aproximadamente 50% dos alunos dos cursos de residência médica são mulheres) é um fenômeno que se observa também em diversos países.”[7]

O mercado de trabalho médico, na sociedade capitalista brasileira, tem sido regulado crescentemente por diversos agentes intermediários entre o profissional e os tomadores dos serviços de saúde, evidenciando um crescente processo de assalariamento, ou proletarização dos profissionais. O próprio Estado constitui-se cada vez mais numa das principais instâncias empregadoras dos profissionais, que buscam uma aposentadoria de acordo as normas empregadas para os servidores públicos, que são diferenciadas do resto da população no que tange ao valor do salário teto de aposentadoria.

No Brasil a política de universalização e descentralização do sistema de saúde, instituído pela Constituição Federal de 1988, através do Sistema Único de Saúde (SUS), gera uma maior expansão dos empregos em todos os municípios. Os hospitais e postos de saúde são hoje um dos principais locais de inserção da força de trabalho na área da saúde em nível nacional.

Segundo dados do senso de 2002 do IBGE entre 1992 e 2002, houve, no país, um incremento da ordem de 46% no número de postos de trabalho médicos nos estabelecimentos públicos, chegando a 115% na Região Norte.

 





Fonte: Adaptado de - Pesquisa Assistência Médico-Sanitária

IBGE, 1992 e 2002[8]

 

O governo até tenta modificar esta situação de concentração de profissionais, incentivando a interiorização através de programas que oferecem salários de até R$ 8.000,00[9], mas, parece que tais programas de bolsas não tem sido suficientes para resolver o desequilíbrio na oferta de profissionais pelo país.

Alie-se a isso o investimento massivo das corporações privadas e dos planos de saúde que arrebanham os profissionais para dentro de suas instituições, especialmente aqueles recém-formados que não dispõem de recursos para empreender uma carreira liberal em consultório e não querem deixar seus municípios de origem.

No que concerne a atividade em consultório particular, ainda há o fato de que, devido aos problemas financeiros de grande parte da população, que encontra dificuldades para pagar consultas particulares e os próprios planos de saúde, deixaram de procurar os consultórios particulares e passaram a procurar atendimento nos hospitais públicos, desequilibrando a relação demanda-oferta destes serviços e, por consequência, inúmeros profissionais enfrentam problemas para manter os custos operacionais dos consultórios, o que os tem levado a buscar outra alternativa, a de dividir as despesas com colegas ou até mesmo a fechar as portas.

Outro fator que gera um impacto importante no mercado de trabalho médico é a crescente incorporação de novas tecnologias no processo de produção dos serviços. O elevado custo dos equipamentos mais modernos fez com que a prática individual fosse substituída cada vez mais pelo trabalho grupal. Surge a medicina de grupo, atualmente oferecendo possibilidades de inserção a um grande contingente de médicos.

A maioria dos profissionais, especialmente os recém-chegados ao mercado de trabalho, está assinando convênios com empresas privadas ou cooperativas, ou assumindo uma condição de sócio, fictícia, de determinado grupo corporativo de prestação de serviços de saúde, pois estas apresentam-se como as possibilidades de inserção no mercado de trabalho e de remuneração razoável, a curto prazo, mesmo que o retorno financeiro seja menor que nas formas tradicionais do exercício profissional liberal.

Ao comentar sobre a situação dos médicos no mercado de trabalho, Machado focaliza a questão da perda gradual de autonomia do profissional. De acordo com a autora, verifica-se, na atualidade, uma “progressiva perda de propriedade e ou controle, pelo produtor direto, dos meios de produção”[10] e a proliferação de novas formas de distribuição e concentração desses meios, com maior expansão do trabalho assalariado.

O assalariamento se expande cada vez mais, transformando a imagem do profissional liberal autônomo. Este, que costumava garantir a sua independência através do domínio da informação, da posse de recursos materiais e técnicos próprios e da captação de uma clientela cativa, tem observado uma mudança rápida nos últimos anos e as novas gerações de médicos vem realizando sua formação inseridos nesse novo contexto.

Assim, o que vemos é que o assalariamento representa uma reorientação social do trabalho médico, constatando-se a substituição de uma clientela seletiva particular, pela massa da população urbana. É importante compreender também que está em andamento um processo de eliminação do “modelo artesanal de atividade médica”, forma que caracteriza a medicina liberal, “através da crescente separação entre o produtor direto e uma significativa parcela de seus meios de produção, com a correspondente substituição da troca direta entre produtor e consumidor pela venda da força de trabalho no âmbito de um sistema de produção estatal ou privado de serviços de saúde”[11].

Analisando os diversos interesses e a correlação das forças econômicas, institucionais e empresariais, é possível encontrar os fatores explicativos para as novas configurações da profissão médica nos dias de hoje. Vemos que os profissionais mais antigos ainda resistem, mantendo seus consultórios, mas inúmeros deles tem algum vínculo institucional, seja público ou privado, para melhorar sua renda e, quanto aos profissionais mais jovens, estes encontram crescentes limitações para aceder aos instrumentos de trabalho e à clientela, reduzindo seu poder de barganha diante das empresas que estipulam o preço do seu trabalho, não deixando alternativa se não o emprego.

Outro fator importante é a ampliação cada vez maior do número de alunos formados nas faculdades de medicina, onde, segundo o Ministério da Educação a cada ano no Brasil quase 13 mil alunos se formam em medicina. O Conselho Federal de Medicina indica que hoje existem mais de 371.074 médicos no país e que há uma concentração excessiva nas capitais e no litoral. Na Região Sul e Sudeste estão concentrados cerca de 70% dos médicos do país.

Todos estes fatores demonstram claramente que há, cada vez mais, profissionais disponíveis, e que há uma super oferta de profissionais nas capitais, o que acirra a competição pelas vagas disponíveis.

Uma situação de trabalho igualmente importante dentro do processo de transformação do mercado de trabalho médico é a questão da remuneração. A carreira de médico continua sendo muito procurada por jovens de todo país, pois o exercício da profissão, em comparação às outras profissões liberais, ainda é a que melhor remunera. Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas confirma que a profissão de maior remuneração entre as profissões de nível superior é a medicina, que apresenta uma renda salarial média para os portadores do título de doutor em torno de R$ 8.966,07 e R$ 6.705,00 para graduados, enquanto as demais profissões oscilam em torno de R$ 5.000,00 para doutores e R$ 3.500,00 para graduados[12].

A profissão médica é também a que apresenta maior jornada, em torno de 52 horas semanais, enquanto as jornadas de trabalho das demais profissões giram em torno de 42 horas semanais. A explicação para isso, tanto para os maiores salários, quanto o excessivo número de horas trabalhadas, é que o médico tem maior facilidade em manter vários vínculos empregatícios, além da manutenção de consultório particular, o que permite uma maior remuneração, mas também lhe impõe um ritmo extenuante de vida.

Nessa situação de trabalho, ocasionada pelas mudanças de mercado ora mencionadas ao longo do escrito, o médico passa a ser, também, um trabalhador coletivo, e se encaixa no contexto do pensamento de Marx. Ele “reflete sobre o significado - para o indivíduo e a sociedade - da apropriação por não-produtores (pessoas, empresas ou o Estado)”, neste caso pelas grandes instituições, hospitais e corporações, que investem na mercadoria saúde, “de uma parcela do que é produzido socialmente, e desenvolve sua concepção de classe, exploração, opressão e alienação.”[13]

O fundamento da alienação, para Marx, encontra-se na atividade humana prática: o trabalho. Marx faz referência principalmente às manifestações da alienação na sociedade capitalista. Segundo ele, o fato econômico é “o estranhamento entre o trabalhador e sua produção” e seu resultado é o “trabalho alienado, cindido” que se torna independente do produtor, hostil a ele, estranho, poderoso e que, ademais, pertence a outro homem que o subjuga, o que caracteriza uma relação social.

A teoria Marxista, que aqui a refletimos sobre a atividade médica e o impacto sócio econômico que provoca, se encaixa perfeitamente a situação da proletarização do trabalho do médico, Marx “sublinha três aspectos dessa alienação: 1) o trabalhador relaciona-se com o produto do seu trabalho como algo alheio a ele, que o domina e lhe é adverso, e relaciona-se da mesma forma com os objetos naturais do mundo externo; o trabalhador é alienado em relação às coisas; 2) a atividade do trabalhador tampouco está sob seu domínio, ele a percebe como estranho a si próprio, assim como sua vida pessoal e sua energia física e espiritual, sentidas como atividades que não lhe pertencem; o trabalhador é alienado em relação a si mesmo; 3) a vida genérica ou produtiva do ser humano torna-se apenas meio de vida para o trabalhador, ou seja, seu trabalho - que é sua atividade vital consciente e que o distingue dos animais - deixa de ser livre e passa a ser unicamente meio para que sobreviva. Portanto, “do mesmo modo como o operário se vê rebaixado no espiritual e no corporal à condição de máquina, fica reduzido de homem a uma atividade abstrata e a um estômago”. Por outro lado, o trabalho produtivo acaba por tornar-se uma obrigação para o proletário, o qual, não sendo possuidor dos meios de produção, é compelido a vender sua atividade vital, que não é para ele mais do que um meio para poder existir.”[14]

Vimos de forma clara os efeitos dessas transformações no contexto do trabalho médico, cujo produto do trabalho pertence a outro (instituições médicas e hospitais), numa relação da medicina com as corporações médicas, e a transformação da força de trabalho em mercadoria, onde a consequência é que o produto do trabalho do médico, a cura ou a saúde, vem se transformando em mercadoria, impulsionando a economia da saúde.

 


CONCLUSÃO


 

 

Podemos perceber nesta análise das transformações do mercado de trabalho do médico, que o excesso de profissionais disponíveis e sua alta concentração nas grandes cidades acirram a competição pelo mercado de trabalho, empurrando o médico a aceitar cada vez menores salários e a submeter-se a esta situação para conseguir a tão almejada inserção no mercado de trabalho.

Que o capital investido na economia da saúde, trazido pelos empresários do setor, tem deixado o profissional sem alternativa, que, oprimido pelo modelo econômico, vai deixando a profissão liberal, inserindo-se naquilo que podemos chamar de operário da saúde.

Nos últimos anos, para tentar atingir um determinado padrão salarial almejado, o profissional vem aumentando a sua carga de trabalho entre inúmeros afazeres que compreendem cada vez mais uma menor clientela particular no consultório e mais dois, três ou até quatro empregos de em média 20 horas semanais. E, como é humanamente impossível atender a tantos encargos, o resultado é a ausência e falta de profissionais nos postos de saúde, nas emergências e nos hospitais, uma menor dedicação a estudos e atualizações e um consequente aumento no número de erros, gerando nos conselhos regionais de saúde, e nas instâncias judiciais, frequentes reclamações sobre o trabalho do médico, piorando a avaliação do serviço prestado.

Em fim, parece evidente que os médicos vivem hoje um difícil momento de transição da profissão, com um grande número de profissionais tentando resistir em deixar o status de profissional liberal, daquele bem sucedido “medalhão”[15], que do seu consultório tudo comandava para a entrega do produto saúde, para o trabalho assalariado, passando a condição de proletário e de dependência de um patrão capitalista, que lhe explora em troca de um salário fixo e outros benefícios legais, ou até mesmo de empregos públicos, que lhe garantam uma aposentadoria.

 

 

SOCIOLOGY:

PROLETARIZATION OF MEDICAL JOB

 

 

ABSTRACT


 

 

The theme of this study aim to clarify the contours of the physician labor market. W’ll undertake an analysis of the changes in the context of the work for medical professional and trends in this market, addressing the vision of the transition that has been taken place, physician are leaving this work typically performed in private practice  becoming a employed professional, showing the growing proletarization doctor's work in Marxist concepts, regarding capital and economy.

 

 

 

KEYWORDS: Work. Health. Proletarization.

 

 


NOTAS


 




[1] . Acesso em 01 de dezembro de 2012.
[2] . Acesso em 12 de dezembro de 2012.
[3] Este conceito aparece nos escritos de Marx, especialmente na obra Trabalho Assalariado e Capital. < http://www.marxists.org/portugues/marx/1849/04/05.htm>. Acesso em 28 de dezembro de 2012.
[4] Machado, Maria Helena. Os Médicos no Brasil: um retrato da realidade. Ed. FIOCRUZ, 1997, p. 106.
[5] IV Congresso EndoRio, Hotel Windsor, Conferência: Responsabilidade civil e o erro Médico, conferencista: Marcos Carnevale. 11 a 12 de setembro de 2009.
[6] A 1ª - Associação das Vítimas de Erros Médicos – AVERMES foi fundada no Rio de Janeiro: ano 1991. A 2ª associação - Associação das Vítimas de Erros Médicos de São Paulo – foi fundada em São Paulo: ano 2000.
[7] Ibden., p. 45.
[8] <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/ams/comentarios.pdf>. Acesso em 28 de dezembro de 2012
[9] < http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/12/programa-incentiva-medicos-atender-em-regioes-carentes.html>. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[10] Machado, Maria Helena. Os Médicos no Brasil: um retrato da realidade. Ed. FIOCRUZ, 1997, p. 29
[11] Santos, Tania Steren dos. Considerações sobre mudanças na profissão médica e diferenciações ocupacionais no interior de um Hospital Universitário (HCPA). www.sbsociologia.com.br. Acesso em 28 de dezembro 2012, p. 7.
[12] <http://www.cps.fgv.br/ibrecps/iv/midia/lc012.pdf>. Acesso em 13 de dezembro de 2012.
[13] Quintaneiro, Tania Et all. Um Toque de Clássicos: MARX, DURKHEIM e WEBER, Ed. UFMG, 2003, p. 38.
[14] Ibden., p. 49 e 50.
[15] < http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_Medalh%C3%A3o>. A figura do medalhão é empregada analogamente, ou seja, assim como o medalhão trata-se distintivo – aquilo que se mostra para ser distinguido – a pessoa que assume essa posição se comporta de tal modo que é diferenciada das demais. No jargão médico Medalhão é como ficou conhecido aquele profissional médico, antigo, com muita experiência, que transitava entre o consultório e a Universidade, como professor.